O que te faz bem? – Parte I

 

Um dia tive que fazer uma escolha. Sabia que não era só mais uma, ela mudaria tudo que sabia de mim até então.

A Mirian, como todos conheciam, era constante, disciplinada, estudiosa, comprometida, previsível.  Pouco sabia sobre “não conseguir”. Se dedicava e alcançava tudo o que se propunha a fazer.

Acreditava que um dia teria uma boa oportunidade e que colocaria em uso o que havida aprendido nos últimos anos (entre graduação,especialização e mestrado).  Em 2014, um mês depois de conseguir a primeira vaga como professora em uma universidade surgiu a grande chance: uma vaga de assessora científica em uma multinacional!

Fiz o processo seletivo e passei. Estava radiante! Natural, era mesmo um sonho de emprego para os padrões sociais: empresa conhecida, salário bacana, vaga importante, estabilidade! A vida seguia como todos esperavam – e eu também.

Em pouco tempo estava em Minas Gerais (na única sede da empresa) para os primeiros treinamentos. Era uma fase totalmente nova! Estava imersa naquele universo, seguindo os rituais de ambientes corporativos. Regras, formalidades, vestimentas… tudo soava com um certo status – daquele que faz todo recém-formado falar da vida profissional com orgulho!

” A vida seguia como todos esperavam – e eu também”. Foto em uma das viagens entre a capital mineira e paranaense.

 

A tão sonhada estabilidade me proporcionou algumas comodidades, mas foi tão passageira quanto a minha alegria. Em menos de 1 ano trabalhando no sistema homeoffice e com algumas viagens de trabalho/treinamento, senti que havia perdido o brilho nos olhos.

A tranquilidade de trabalhar em casa, sem grandes demandas, nem a necessidade de estar com pessoas, não me fazia bem. Viagens de avião, mordomias de hotéis e refeições caras não tinham mais graça, tampouco tinha orgulho em falar do meu trabalho. Estava incomodada por não conseguir dar o meu melhor e totalmente desmotivada.

Meses haviam se passado quando, depois de um dia de trabalho/treinamento em Minas, descansando na piscina linda de um hotel, notei um sentimento tomar conta. Ele não era um estranho. Na verdade estava há tempos ao meu lado, eu só o ignorava.  Mas, naquele dia, ele parecia também ter decido dar um mergulho… um mergulho de cabeça em mim!

Um silêncio tomou conta, um vazio angustiante. Lembrei da minha família, da minha cidade, da minha simplicidade… Estava longe de casa e ainda mais de mim mesma. E nada do que o status e o dinheiro pudessem trazer daria sentido ao que estava vivendo.

Esse vazio provavelmente não seria motivo de estranheza e julgamentos (meus inclusive) se eu estivesse desempregada ou em busca de uma grande chance. Mas, naquele caso, o sentimento assustava! Tinha mais do que eu imaginava, uma realidade que muitos gostariam.

Sabia que algo teria que mudar, mas não tinha certeza de como e quando fazer isso. Então, como um sinal do Céu, pouco tempo depois veio uma encruzilhada: uma proposta para trabalhar na sede da empresa. Na verdade, a escolha era simples: ou eu me mudava para Minas ou era desligada.

“PARE”. Não tinha outra opção, precisava seguir minha intuição! Foto num fim de tarde de volta pra casa, no Aeroporto de Belo Horizonte.

Era como se Alguém estivesse me testando. Em 2015, a crise já era notícia e as demissões em massa começavam a ganhar força no país.  Teria que fazer uma escolha e sabia que ela mudaria tudo.

Embora tivesse certeza do que deveria fazer,  aquele “pedido de mudança para Minas” era uma explicação razoável para justificar a minha saída da empresa aos amigos e familiares. E inicialmente, usar essa “máscara” foi confortável pra mim.

Depois de um tempo e de muita reflexão, entendi a verdade e passei a falar a todos com mais leveza. “Não. Não havia nada de errado em eu me mudar para terras mineiras, apenas não estava feliz. Não havia nada nada de errado no trabalho ou com as pessoas (aliás, sou apaixonada pelo “jeitin” mineiro e deixei amigas queridas lá!), simplesmente aquele estilo de vida não me fazia bem.”

Sair da empresa não foi só um alívio, como foi extremamente intrigante. Se essa vida não me fazia bem, afinal de contas, O QUE ME FAZIA BEM???

Vou terminar a primeira parte dessa história com um trecho do post que escrevi em 2014, no primeiro dia de treinamento em Minas, depois de perceber o grande passo na carreira que havia dado. Hoje e a cada dia, o que escrevi faz mais sentido:

“HOJE SOU SÓ GRATIDÃO. 

Por tudo, começo, meio e fim.  Por tudo que aconteceu, bom e ruim, que me trouxe aqui (…)

PORQUE TUDO VALEU A PENA!”   

 🙂

(continua…)

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